sábado, 26 de janeiro de 2013

A Canção do Saxophone




         Fui apanhar o maço de cigarros no armário quando bateram na porta. Eu tinha certeza que Ramona Kiss nada havia esquecido em meu quarto, mesmo assim resolvi olhar com atenção sobre a cama e ao redor dela e nada encontrei que a tivesse feito voltar tão rapidamente. Não havia nenhum brinco, anel, colar ou pulseira de plástico perdidos por ali entre a colcha e o travesseiro. Não havia nada, a não ser aquele maldito perfume adolescente ainda impregnando o lençol.
         Abri a porta e Jovencita entrou apressada, olhando para trás, como se temesse estar sendo seguida por um estranho.
         _ Desculpe por incomodá-lo, _ Disse ela, nervosa, ao fechar a porta do quarto._ mas uma moça pediu pra lhe entregar este bilhete...
         E Jovencita passou-me um guardanapo de papel dobrado.
         _ Era uma moça bem bonita... _ Disse ela, sem me olhar.
         Coloquei o maço de cigarros no criado-mudo e abri o bilhete. Era a letra miúda, firme e sem enfeites de Clair de Lune:
         “Estou saindo da festa, mon chéri. Fique nessa estrada e nos encontraremos sempre. Enquanto isso prove uns drinques com os cumprimentos do Maître! Para sempre e com amor, Clair de Lune."
         Dobrei o bilhete e o coloquei sob o travesseiro.
         _ Ela partiu há duas horas. _ Disse Jovencita.
         _ Por que me entregou o bilhete somente agora?
         _ Ela pediu!
         _ Sabe se estava acompanhada?
         _ Vi um homem negro e forte vestido de camiseta regata branca a esperando aos pés da escada. _ Respondeu Jovencita, me analisando atentamente. _ Parecia mais um guarda-costas do que um velho conhecido carregando malas de viagem; não era muito bonito, mas deu pra notar os músculos de cavalo brilhando de suor.
         _ Clair de Lune nunca gostou de homens brancos...
         _ Você é mais branco que a neve...
         _ Fui uma exceção; tenho olhos negros...            
         _ Seus olhos são castanhos...
         _ Somente quando estou sóbrio. De qualquer modo o guarda-costas de Clair de Lune não vai sobreviver dez minutos após a hora do jantar.
         Jovencita e eu nos olhamos em silêncio, depois ela virou-se para a cama.                                   
         _ Sua cama está mal arrumada, Senhor Gallas. _ Disse ela, curvando-se para esticar o lençol e prender uma das pontas sob o colchão, e seus seios se mostraram através do decote do vestido.
         _ Pensei que evangélicas usassem sutiã...
         Jovencita assustou-se e levou a mão ao decote, tapando-o.
         _ Costumam tirar na hora do banho. _ Disse ela, erguendo-se.
         _ Tudo bem, eu também bebo disso. _ Disse eu, tocando em seus cabelos com a palma da mão, depois toquei em seu rosto e me aproximei para beijá-la.
         A porta do quarto abriu-se de repente e Jovencita saltou para traz, assustada.
         _ Ei, mano _ Disse Cambuza Twist ao entrar. _ Fazendo estudos?
         Balalaica surgiu atrás de Cambuza Twist e também entrou no quarto.
         _ Você ficaria rico se colocasse um carrinho de pipocas junto à porta. _ Disse-me Jovencita, ajeitando o vestido.          
         _ Não se acanhe querida. _ Disse Balalaica sorrindo para Jovencita._ Eu a compreendo profundamente...
         Jovencita abotoou dois dos três botões do vestido junto ao pescoço, ajeitou os cabelos e saiu do quarto sorrindo para Balalaica.
         _ Vou esperá-lo na recepção, Twist. _ Disse Balalaica, saindo do quarto atrás de Jovencita.
         _ Não é incrível o destino? _ Disse Cambuza Twist, apontando para as meninas. _ Parecem irmãs...
         Cambuza Twist sentou a beira na cama e encontrou o bilhete de Clair de Lune próximo ao travesseiro. Apanhei o maço de cigarros e fui à varanda.
         Anoitecia. Retirei um cigarro do maço e o acendi. Na Praça do Mercado em frente ao hotel avistei duas moças vestidas com cangas de praia curvando-se no chafariz de Dom Pedro e bebendo com as mãos a água que jorrava das bicas; tinham tanta sede que nem se deram conta da fila de moleques e mendigos que se formava atrás delas.
         _ É uma pena, Gallas... _ Disse Cambuza Twist, ao fundo.
         Virei para melhor entendê-lo.
         _ O que disse?           
         _ Vocês estão sempre se despedindo! _ Prosseguiu ele, fechando o bilhete que havia encontrado. _ Clair de Lune e você nunca se entendem...
         _ As despedidas estão cada vez mais curtas. _ Disse eu, tornando a virar-me para o chafariz de Dom Pedro na Praça do Mercado. As duas moças haviam sumido, os moleques e os mendigos também; havia somente um cachorro magro e sujo com o focinho enfiado numa cumbuca de água junto ao chafariz.
         _ Por onde andou depois do enterro, Gallas? _ Perguntou Cambuza Twist.
         _ Pelos bares... _ Respondi, voltando ao quarto e apagando o cigarro no cinzeiro de madeira sobre o criado-mudo.
         _ Encontrou-se com La Rúbia Mar?
         _ Sim, depois do terceiro drinque e dentro de um espelho...
         _ Conversaram?
         _ Em algumas línguas, depois em silêncio...
         _ O que ela disse?
         _ Queimou todas as minhas cartas no verão passado...
         _ Aposto que as decorou antes de queimá-las...
         Cambuza levantou-se e começou a andar em círculos entorno do quarto.
         _ Vamos beber uma cerveja, mano velho?
         _ Primeiro vou tomar um banho.
         _ Não demore. _ Pediu ele. _ Balalaica e eu vamos para o Rio de Janeiro. 
         _ Mesmo? Parece uma boa moça, Twist. Sem juízo, mas uma boa moça...
         _ Estou cansado de zanzar sem destino pelo mundo, Gallas. _ Continuou ele, como se não tivesse me ouvido. _ Não seremos jovens pra sempre, sabia? Preciso pensar na vida, apesar de eu ter a vaga ideia de que não envelheceremos...
         Fui ao banho, voltei, vesti roupas limpas, tranquei a porta do quarto e entreguei a chave para Jovencita. O noivo Juvenal, ao seu lado na recepção, me olhou desconfiado. Jovencita e Balalaica se abraçaram e se despediram com sorrisos e beijinhos no rosto, depois cochicharam algo.
         Entramos no Bar Mãe Preta, ao lado da rodoviária, e ficamos de pé junto ao balcão. Cambuza Twist pediu uma cerveja, dois conhaques e um vermute doce. O copeiro sugeriu uma mesa, ao fundo, e como acompanhamento uma porção de coração de galinha, especialidade do novo cozinheiro da casa.
         _ Vamos, meninos! _ Disse Balalaica, eufórica. _ Eu adoraria prová-los.
         _ Não deixe o cozinheiro fatiar o seu coração, Gallas. _ Disse Cambuza Twist. _ Talvez a faca não esteja bem amolada...
         O copeiro acenou para o garçom e ele se aproximou.     
         _ Por favor, me sigam! _ pediu o rapaz.
         _ Tudo bem, Charlie, estamos bem atrás...    
         _ Meu nome não é Charlie!
         _ Claro, Charlie, claro. Mas que você se parece com ele, parece!
         _ Com quem, Twist? _ Perguntou Balalaica, curiosa.
         _ Com aquele ator cômico do cinema mudo que tinha um bigodinho...
         _ Não tenho a menor ideia de quem você está falando.
         O garçom trouxe as bebidas e Balalaica reclamou que faltava uma azeitona no vermute. Cambuza puxou o copeiro pelo braço e pediu que ele providenciasse uma cereja ao invés de uma azeitona.
         _ Eu pedi uma azeitona, Twist! _ Corrigiu Balalaica.
         _ Tudo bem, Charlie! _ Disse Cambuza Twist ao garçom. _ Coloque uma cereja e uma azeitona no drinque da moça...
         Era uma noite qualquer, nem chuvosa estava...
                                            
                                             



http://www.bookess.com/read/14546

Um comentário:

  1. Para você uma tag, eu espero que não se importe, abraços.

    http://www.ladomalucadeser.blogspot.com.br/2013/04/mais-uma-tag-para-mim-e-quase-o-mesmo.html

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